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  • 03/04/2017

    Bella Mafia, de Vitto Graziano (Resenha)

    Olá, Leitores.

    Foto: arquivo pessoal.

    Faz um tempo que estou sumido, fiquei em uma ressaca literária horrenda por esses tempos e, para me curar, entrei de cabeça nessa história surreal de “Bella Mafia”. Um suspense de tirar o fôlego, envolvendo assassinos de aluguel, políticos corruptos, tráfico de drogas, a máfia. Um ambiente que poderíamos facilmente associar aos Estados Unidos ou à Europa, mas cujas ações se passam em nosso país, no Brasil.
    Esse livro foi recebido de uma parceria com a editora Luva, nova no mercado, mas que vem fazendo um excelente trabalho. A edição é muito bem estruturada, com folhas de papel pólen amareladas (existe algo mais próximo do amor do que livros com folha de papel pólen com uma boa gramatura?), fontes e espaçamentos em tamanho ideal e ilustrações de fim de capítulo muito bonitas. No começo do livro eles inclusive tomaram o cuidado de colocar um organograma com a hierarquia da família na máfia.
    A sinopse do livro funciona bem ao nos entregar o panorama geral do enredo:

    Sócio majoritário da maior mineradora do Rio de Janeiro, Salvador Lavezzo também é a cabeça por trás de um sofisticado esquema de narcotráfico no eixo Brasil-Suíça; contudo, vê sua fortuna ser ameaçada após a apreensão de dez toneladas de pasta base de cocaína no Mato Grosso. Investigado pela Polícia Federal e jurado de morte por seus superiores, Lavezzo terá 24 horas para virar o jogo a seu favor.
    A beleza desta obra vem da organização da guerra. No sentido óbvio e explícito, por tratar-se de uma organização criminosa; hierarquizada, regulada por normas rígidas, disciplinares e voltada para o enriquecimento ilegal, mas também no sentido de tudo funcionar como um relógio; as mortes, as ameaças, as palavras, nada está fora do contexto; tudo é necessário lá onde acontece e lá onde aparece. Este livro é uma máquina de guerra, pontual como a engrenagem do fuzil, bem lubrificado como o tanque e delicado como a pólvora.

    Essa introdução serviu apenas para aguçar minha curiosidade, mas ela não abarca tudo o que a história passa. É muito bom acompanhar não só a vida de Lavezzo, mas a de todas as pessoas a sua volta, que ele manipula – ou tenta manipular – para atingir seus objetivos, e as consequências que ser amigo ou parente de alguém tão poderoso ou perigoso pode acarretar.
    De começo, não somos apresentados a esse protagonista, Lavezzo, mas sim a Tupinambá, um assassino de aluguel que está cumprindo um serviço. Não sabemos muito que serviço é esse e quem é o mandante, só podemos ver suas ações e divagações. Durante o cumprimento do dever, Tupinambá vai atrás de pistas que o levam a sua vítima, Guzmán Aguirre, que morre por falar demais. Somos apresentados às médicas Patricia e Andressa, que estão saindo do plantão e planejando ir a uma festa. Somos apresentados a Ribeiro, que está amarrado e sendo torturado por um sádico, que aparenta apenas cumprir ordens. Lavezzo aparece de relance, sendo conduzido por seu motorista e admirador Roni Mota. Conseguimos enxergar a organização AMIGOS, alta cúpula da máfia que está planejando uma reunião na casa de Riccardo Trevis para falar sobre o erro que Lavezzo cometeu e decidir a punição adequada.
    O começo do livro é assim, meio confuso. Parecem histórias meio aleatórias, jogadas, mas no decorrer da leitura vamos percebendo que essas histórias, na verdade, são um quebra-cabeça a ser montado em torno de Lavezzo, em que aos poucos vamos entendendo a extensão de suas falhas para com a organização, e a maneira como ele prevê e reage aos acontecimentos é a grande questão do livro. Lavezzo é manipulador, cruel, mas também é encantador e inteligente. Ele é cínico e entende da guerra que está lutando. Ele conhece políticos, policiais, juízes, e controla muitos deles. Ele sabe que numa guerra como essa o poder vem dos tiros de pistolas, mas o real poder vem do dinheiro, e isso ele tem de sobra.
    Vitto tem uma escrita crua, que me lembrou muito daqueles romances noir sobre a máfia italiana, me peguei diversas vezes esperando discussões sobre venda de bebida ilegal e personagens fumando charutos, ou um investigador de sobretudo marrom adentrar o recinto. Foi muito bom ver como ele trabalhou essa atmosfera, e colocá-la em outra realidade, no Brasil moderno. E ele não poupa o leitor. Ele se propõe a falar da sujeira da máfia, da crueldade das pessoas que estão nessa organização. Logo no começo do livro somos apresentados a personagens que não sabemos direito como se encaixam na história, e nos afeiçoamos a eles só para depois de cinco páginas os vermos morrendo. Ele não tem dó de apertar o gatilho, de colocar dedo na ferida, de fazer com que pessoas boas paguem pelos erros de pessoas ruins.
    O livro conta com muitas notas de rodapé explicando termos técnicos usados pelo autor, algumas vezes até um pouco desnecessárias como “STF = Supremo Tribunal Federal”; “caveiras = membros do bope”, mas outras bem elucidativas, como a que explica o que seria a Operação Condor. Talvez dependa da vivência de cada pessoa, mas se eu fosse o editor talvez eu optasse por reduzir algumas delas. Essa é uma questão controversa e interessante, já que existe quem defenda o uso de notas, há quem abomine. Há muito o que se discutir a respeito, mas nesse caso em questão achei que elas foram usadas em demasia. Não encontrei erros de revisão durante a leitura, achei um trabalho muito bem feito e me interessei em conhecer outras obras do autor, para descobrir se esse tom noir do livro é uma marca registrada dele ou se foi apenas um recurso estilístico para dar mais realidade à aura de máfia que ele se propôs a criar.
    No fim, considerei a leitura satisfatória e agradável, a edição muito bonita e o estilo bem interessante. Bella Mafia exige um pouco de dedicação e paciência, mas no final vale a pena.

    2 comentários:

    1. Gostei do termo ressaca literária, acho que vou adotar também.rsrs
      Não conhecia o autor, gostei muito da forma como conduziu a resenha.
      Parabéns!
      Simplesmente Ciana

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      Respostas
      1. Obrigado Ciana
        hahahhahaha
        eu peguei esse termo de alguém do skoob, eu acho, e me define MUITO quando saio de uma leitura incrivel (ou, as vezes, muito ruim) e não consigo ler mais nada por um tempo porque nada me atrai ou me prende :/

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