• início
  • contato
  • parceria
  • blogroll
  • Livros Resenhados

  • 15/09/2016

    A Teoria de Tudo, de Jane Hawking (Resenha)

    Essa imagem diz boa parte da minha reação com o livro. (XD)
    Olá, pessoal!
    Vocês sabiam que a função primordial da capa era, inicialmente, proteger o miolo do livro? Sendo o miolo a história e seus “adereços”, claro. Foi principalmente após a Revolução Industrial que a capa passou a ter uma função diferente, começando a ganhar cores, imagens e informações de uma forma muito mais prática. Também não é necessário ir muito longe para ver o quanto as capas de livros evoluíram nos últimos anos. Basta comparar as edições atuais com edições das duas últimas décadas. A partir disso, e de toda a questão comercial, a capa passou a ser um ponto de informação e – porque não? – marketing. Não fugindo disso, convém destacar o papel da capa antes, durante e após os momentos de leitura da obra; é a “janela”, a porta de entrada da obra. Todo momento de leitura terá, mesmo que brevemente, a visão desse painel. Às vezes a capa nos engana. Às vezes, eu evito um livro justamente pela capa; quero muito ler “A laranja mecânica”, por exemplo, mas aquela capa da edição – mais barata – com a separação silábica horrenda me agonia demais, de modo que só lerei quanto tiver outra edição em mãos. Então, já pensaram que, sim, a capa importa?
    Capa da obra em inglês. Fonte: Skoob.
    Por outro lado, às vezes só vemos o quanto a capa não combina em nada com a história do livro quando a leitura vai avançando e se percebe que a visão exterior – capa, contracapa – passa uma visão que não está tão correlacionada com o interior. É o triste caso de “A teoria de tudo”, da incrível Jane Hawking, lançado aqui no Brasil pela Única, selo da Editora Gente. Inicialmente, levando em conta as informações – desnecessárias – da capa relacionadas ao filme, e todo o jogo imagético e da paleta de cores, imaginei que seria uma história dramática, claro, mas romantizada demais. E, vendo deste lado, fiquei contente ao verificar que não é bem assim. Mas irritada ao perceber o quanto as informações são um tanto equivocadas. Ainda não tive a oportunidade de ver o filme, e me pergunto se devo me arriscar e me decepcionar. Sinto que a perspectiva do filme e do livro são bem diversas. Este ponto, em principal, é o que me faz questionar: Qual a cisma com capa de filme? É a mesma história? É. Mas são abordagens diferentes. Particularmente não gosto dessas capas; seja de “A menina que roubava livros”, de “Sniper Americano”, “As vantagens de ser invisível” ou qualquer outro. Essa mistura só é benéfica comercialmente, não consigo acreditar que há outro propósito. Nem sempre isso é ruim, admito. A capa de “Sniper Americano” é bem boa, apesar de que, sendo uma autobiografia, devia ter o rosto do próprio autor e não o de um ator. O que é o caso de “A teoria de tudo”! Não digo que os atores são ruins, não, não confundam, nem assisti aos filmes. Estou apenas dizendo que a perspectiva não é a mesma.
    Porém, não me refiro só à imagem ou aos atores. Meu problema com a capa do livro é outro também, que ficou maior ao reparar em dois detalhes: a capa original e os escritos na contracapa. Quanto à imagem (da edição brasileira), basta pensar que ela retrata, no máximo, 5% do livro; então, por que uma imagem que representa apenas 5% de uma obra tão grande – 448 páginas muito bem preenchidas – e com tanta cena ou interpretação diferente além da explorada na capa, um momento romântico? Às vezes, pensando assim, eu prefiro as capas mais abstratas – já olharam as capas dos livros do Murakami? As da Alfaguara, digo. Quanto aos escritos...


    Não consigo digerir essas informações. Para que não fique prolongado demais, observem apenas a parte “o amor que não vê obstáculos”. Acho que essa é uma frase de efeito muito boa para romances cheios de açúcar e aventura, histórias meio Romeu e Julieta. Para “A teoria de tudo”, no entanto, é uma frase que não fecha. Jane pode ser corajosa, esperta, dedicada e tudo o mais, mas em nenhum momento ela deixou de ver os obstáculos. Sim, ela lutou para passar por todos eles, superou boa parte deles, mas isso era por vê-los, por saber que precisava seguir em frente e ajudar o Stephen da melhor forma possível. Ela se dedicou a isso. Acontece que essa é uma história real, com as tragédias da vida, os problemas da vida em sociedade do final do século passado e afins; não é uma história de “amor cego”. O amor é sim o que move a vida da Jane, mas não um “amor que não vê obstáculos”, é mais afetuoso e realístico que isso, mais forte e delicado; não deixando de dizer, claro, que a partir de dado momento não é mais o amor por Stephen que os move, e sim o amor pela família.
    “É um modo de dizer, não é literalmente que não vê os obstáculos”, podem me dizer isso. E eu direi: Pois eu não gostei dessa frase para esse livro. Não é a perspectiva que tirei da história; preferia que fosse algo envolvendo a palavra “superação” (que é uma palavra interessante, não acham? Uma grande (super) ação, e o ato de superar algo). A meu ver parece tanto marketing desnecessário e um tanto equivocado do livro que pode decepcionar a leitura. Além disso, só restam duas pequenas informações quanto à edição: os erros de revisão, pois observei algumas palavras grafadas erradas e muitas vírgulas erradas ou mesmo faltando – que me agoniam muito durante a leitura; e o título. Pelo que eu entendi, essa é a segunda versão do livro de memórias da Jane Hawking, a primeira sendo intitulada de Music to Move the Stars (sério, que título fofo! Seguindo o estilo da obra, e no meu parco entendimento, seria algo como “Música para enternecer [ou mover mesmo] as estrelas”), e a segunda Travelling to infinity: my life with Stephen (esse tem muito a ver com o livro, mesmo, até a forma em que está escrito “minha vida com Stephen”, reparem nas ênfases que eu dei), que foi, por algum motivo, não digo que se chama filme, traduzido como “A teoria de tudo”. E, mesmo após ler as 448 páginas da obra, ainda não consigo entender o porquê desse título. Para o filme, até posso compreender, é uma visão que parece equilibrar Stephen e Jane, embora focando bem mais nele e no romance. Já a obra, ao que me parece, não possui o objetivo de retratar a vida do Stephen – que é um físico que estuda o universo –, é a vida da Jane com o Stephen. O que ela viveu com ele. A visão dela da vida deles. Deu para entender?

    “Eu me consolei com a certeza de que nenhuma quantidade de reconhecimento acadêmico poderia ter igualado a realização criativa que eu derivava de minha família.” (p. 192).

    Antes de terminar a leitura, havia planejado refletir, na resenha, sobre questões referentes à biografia ou aos livros de memórias e sobre resenhar esse tipo de obra; mas, considerando a extensão do meu comentário acima quanto à edição, me aterei apenas à história agora e deixo que reflitam sobre essas outras questões.
    Há tantos fatos no livro, pois, afinal, relata grande parte da vida de Jane, que tentarei resumir. Jane era uma moça tímida – possuía autoconfiança, mas era insegura frente aos outros –, aventureira e que se dedicava à arte, literatura e questões linguísticas. Sendo que, não surpreendente, sua tese de doutorado foi sobre Literatura Medieval Espanhola. Aliás, o próprio fato de tê-la terminado foi uma grande conquista, tendo em vista que levou treze anos para conclui-la, por motivos bem expostos no livro, que me fez pensar que, no fim, terminar a tese era mais uma prova para ela mesma do que um trabalho para ganhar um diploma e, possivelmente, algum trabalho na área acadêmica. Ainda jovem, Jane conheceu Stephen Hawking, um rapaz superinteligente, divertido e um tanto rebelde. Nessa mesma época, Stephen é diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma doença que aos poucos passaria a restringir seus movimentos e complicar sua saúde, tendo uma expectativa de apenas mais dois anos de vida. Apesar disso, Jane, sabendo que a vida não seria fácil, decide seguir com a firme convicção de estar ao lado de Stephen.



    A obra, então, nos apresenta um pouco de Jane antes de conhecê-lo, e tratará de comentar os vinte e cinco anos de casados, e algumas poucas páginas após isso. Boa parte das dificuldades foi retratada por Jane. Particularmente, até passadas boas duas centenas de páginas, ainda não entendia porque expor tanto de suas dificuldades; qual o propósito de mostrar uma vida tão “sofrida”? Claro, ela demonstra os lados bons também. Mas Jane nos deixa claro que conviver com alguém com necessidades especiais não é um mar de rosas, como dizem. O que ela decidiu contar, não apenas porque são grande parte de suas memórias, mas porque, segundo ela, isso faz justiça às outras pessoas que também passam por isso. Antes de Jane começar a expor essas dificuldades do dia a dia, muitas pessoas achavam que sua vida era tão tranquila e feliz quanto a mídia demonstrava – isso porque muito antes da Jane escrever seu livro de memórias Stephen já era mundialmente famoso e havia muita atenção da mídia sobre eles. O que gerava aquela frase tão batida: “se ela consegue, por que você não?”. Algo que, imagino, quase todo mundo já deve ter ouvido em algum momento.

    “Se o futuro tinha adquirido uma aura reconfortante de certeza, a chave para isso residia na gestão do presente. Viver cada dia como ele se apresentava, em vez de projetar uma miragem fantasiosa para o distante futuro, estava se tornando um modo de vida.” (p. 118).

    Em meio a tudo por que passou, acredito não ser um equívoco dizer que Jane é uma pessoa de muito conteúdo. Tem um conhecimento admirável de arte e literatura; e fez doutorado nisso. Não é algo que se possa dizer que é pouca coisa. Contudo, quem ler a obra entenderá que todo esse lado literário e encantador, esse lado subjetivo e pessoal, o que fazia dela um indivíduo único, em determinados momentos foi posto de lado como apenas um utensílio. Para que fique claro, num momento específico da vida de Jane, ela é criticada por não ter feito uma especialização para cuidar de Stephen. Isso é, por não ter qualificação de enfermagem para cuidar do até então seu marido.

    “Então eu alcancei o que me propus a alcançar – dedicar-me a Stephen, dando-lhe a chance de realizar sua genialidade. Contudo, no processo, eu estava começando a perder minha identidade.” (p. 219).

    Não é uma história, como eu disse, tão linda e emocionante sobre amor, sem obstáculos; não consigo aceitar essa ideia com a história de uma pessoa que em boa parte de sua vida precisa perder seu próprio espaço, é criticada pelo que é, por não se tornar o que não quer ser. Jane foi corajosa ao optar e seguir fielmente por tantos anos ao lado de Stephen. Muitos não chegariam à metade do caminho. Contudo, nesse caminho ela perdeu seu espaço, sua individualidade. E, ao tentar manter o que tinha de sua individualidade, acaba sendo tratada com maldade, como se não colocasse o Stephen em primeiro lugar. E, como ela aponta em dado momento, estaria ela errada por apenas querer ser amada pelo que ela era de fato?

    “Havia, ao que parecia, um elemento na vida dessas pessoas que faltava na nossa e que eu me vi invejando. Não era derrotismo, mas paz interior.” (p. 279).

    Ademais, apesar dos muitos pontos que o livro traz – e tem espaço para isso nas 448 páginas muito bem preenchidas (eu já disse isso, né? Mas acho que não comentei que o livro é bem levinho, mesmo!) – não posso deixar de mencionar a música, que está presente no decorrer de todo o livro. Sejam as que Stephen ouve, incluindo Wagner, seja a música como elemento de fuga e deleite; seja, inclusive, a música que envolveu Jane, principalmente depois de participar de um coral a convite de um conhecido – se não me engano, uma amiga. É a música que vai trazer a Jane um espaço que ela dispõe a si mesma, treinando a própria voz, até mesmo cantando em corais diversas vezes. E é também por isso que eu achei o título Music to Move the Stars tão fofo, pelo papel da música num todo.
    Por fim, e não menos importante, a narrativa. Como já disse, Jane tem muito conteúdo, e conhecimentos bem amplos de arte/literatura, o que é exposto em sua escrita; seja na menção de uma obra ou comparação com algum autor. Nisso sua escrita é interessante, e até mesmo pode ser aproveitada durante a leitura. Porém, embora tenha seus pontos positivos de ser bem escrito (tentemos esquecer os erros de revisão), a narrativa é cansativa, diria até exaustiva, com detalhes que poderiam muitas vezes ser suprimidos. A leitura, pelo menos para mim, foi bem arrastada até por volta da terceira centena de páginas. Reafirmo, a escrita é boa, com passagens/trechos muito interessantes, mas é informativa demais às vezes, o que chega a ser chato e cansativo de ler. Em outras palavras, não flui.


    Infelizmente minha modelo não quis olhar para a câmera, e nem para o livro. Mas é uma reação plausível.
    Ainda teria muito a se comentar sobre todos os obstáculos ou dificuldades que aparecem no livro, ou mesmo sobre as partes boas, e tão distanciadas de minha realidade, mas deixarei que conheçam todos esses pormenores por meio da leitura da obra. Apesar da dúvida entre recomendá-la ou não. Claro que essa é só a minha visão da obra, e que alguém poderá ler e recomendar esta obra como um livro fantástico, e de certa forma até é; se não for levar em consideração os pontos negativos que eu apontei e eu espero ter deixado bem claro. Não quero desapontá-los, vale a pena, mas é exaustivo.

    2 comentários:

    1. Oi, Paula,
      Adorei a sua resenha. Acho sua crítica sobre as capas de livros muito válida, pois penso que é um desrespeito com a obra, já que o livro perde sua importância, tornando-o um meio de "vender" o filme, o que não é o objetivo do livro, na minha opinião.
      Quanto à história, parece-me que Jane mostra uma realidade que as pessoas dificilmente entendem, pois tendem a julgar ao invés de entender que lidar com pessoas com deficiência não é algo fácil e tem seus obstáculos. É algo interessante, todavia, é uma pena que a narrativa seja cansativa.
      Beijos,
      Julya.

      ResponderExcluir
      Respostas
      1. Oi, Julya! ^^
        Fico contente que achasses boa~ *-*
        Concordo totalmente; são duas coisas diferentes, e o objetivo de um livro, imagino, não é ou nunca deveria ser servir de "propaganda" - por falta de uma palavra melhor no momento - para os filmes. Tanto por serem coisas diferentes e utilizarem suportes diferentes, o audiovisual e o livro, quanto por terem perspectivas diferentes. O filme jamais abarcará a visão total do livro; por mais próximo que seja.
        Por outro lado, não digo que o clássico 'deu origem ao filme' seja ruim; a forma como fazem isso é que é desagradável.
        Me parece bem isso, é o que, ao final do livro, consigo tirar do relato da Jane. Por não estarem nessa realidade, é muito fácil julgar e criticar, por não ter ideia ou noção dos obstáculos; ou mesmo do cansaço a que a pessoa é submetida.
        Pois é, infelizmente a narrativa é bem cansativa. =\
        Obrigada pelo comentário. ^^

        Excluir

    Eu curto literatura. Todos os direitos reservados.© - Powered by Blogger. imagem-logo