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  • 01/08/2016

    Estação Onze, de Emily St. John Mandel (Resenha)

    Olá, pessoal!
    Não sei se já leram ou pararam para pensar sobre os finais de livros. Não digo apenas se eles são bons ou não; ampliemos um pouco, pensemos em que sensações os finais nos causam. Em certa aula de Literatura Inglesa e Norte-Americana I (conhecida como Lina), o professor chamou atenção para esse ponto: a importância dos finais nos livros. Até me lembro de certo texto que li, sobre isso, do Luiz Schwarcz. Tanto o começo quanto o final do livro nos marcam. Vocês já perceberam isso?
    Quero dizer, quando li ou quando ouvi o professor de Lina falando sobre isso, sobre essa importância dos finais, eu havia entendido. Mas não percebido e sentido que isso é, de fato, tão relevante ao leitor. É aquele tipo de conhecimento que até que o vivencies não será tão marcante a ti. Entendi isso com as leituras de “Demian” (Hermann Hesse) e “Estação Onze” (Emily St. John Mandel), que são livros cujos finais são distintos demais. Ambas as obras são fantásticas, e possuem questões muito diferentes, mas é como termina a história que marcará nossa impressão final da obra. Redundante? Talvez.
    Devo admitir que não me encantei tanto com o final de “Estação Onze”, porque ele não foi sensacional, não foi algo perto de um clímax, ou mesmo uma cena que te deixa agitado. Porque é um final mais nostálgico, reflexivo; um final que não te deixa com as sensações à flor da pele. E talvez essa tenha sido a intenção! Porque o livro, mais do que uma obra sobre calamidade e relações humanas, é uma obra para pensarmos em nossa sociedade, nas relações humanas, claro, mas em como, na verdade, todo o nosso sistema social é frágil. Então, ele não causa agitação mesmo, não te deixa extasiado ou mesmo empolgado, porque não é o propósito dele – eu acho. Diferente de “Demian”, cujo final é sensacional, porque não deixa totalmente claro e tem um ar meio que de clímax. E é essa sensação, de dúvida, de arrebatamento, que causa esse êxtase ao terminar a leitura. Não dá para deixar de mencionar que a partir disso entram outras questões, como definir se as histórias são "fechadas" ou "abertas" etc.
    Apesar de ter começado a falar pela sensação que o final me proporcionou, espero que não se chateiem com isso, e possam aproveitar tanto da obra quanto eu.

    Bom, já ouviram falar do livro?
    “Estação Onze” é aquele tipo de livro de 400 páginas que, se parares para pensar, associando e pensando o que farias ali, e pensar ainda em cada pormenor, verás uma infinidade de assuntos. Isso porque a obra apresenta a nossa atualidade, nossa sociedade com toda sua tecnologia, e o que poderia vir a ser após uma calamidade. Na obra de Mandel, uma gripe, uma possível mutação da gripe suína pelo que se pode entender, denominada de Gripe da Geórgia, acaba atingindo todo o mundo – pelo que se pode entender ao menos – matando praticamente cerca de 99% da população mundial pelas últimas estatísticas. Tendo contato com o vírus, em 24 horas a pessoa estaria morta. Uma epidemia que se espalhou pelo mundo rapidamente devido às pessoas que viajavam de avião sem saber que estavam infectadas. Horrível, não?

    “Jeevan foi esmagado pela repentina certeza de que era aquilo mesmo, a doença que Hua descrevia iria representar uma fronteira entre um antes e um depois, uma linha que cortaria sua vida ao meio.” (p. 27).

    Segundo pude perceber, a obra é dividida em dois grandes períodos e três núcleos. Os períodos, fáceis de estabelecer pela citação acima, são o antes e o depois da gripe que devastou o mundo. Já os núcleos podem não ser tão facilmente identificados, ou posso estar fazendo erroneamente, e os chamarei de “grupo”, mas pelo que vi são: o grupo do Arthur; o grupo do Jeevan; e o grupo da Sinfonia Itinerante. Todos os grupos aparecem no antes e no depois. Chamo de grupo por englobar, junto ao personagem foco, todos os integrantes que se relacionam com ele. Simplificando, é mais ou menos assim: com o Jeevan – meu personagem favorito da obra –, ficamos conhecendo também seu irmão Frank; com Arthur, bem, a história é mais longa, mas conhecemos um pouco de suas ex-esposas, seu filho Tyler e seu amigo Clark; e, com a Sinfonia Itinerante – grupo de pessoas que viajam juntas apresentando concertos e peças de teatro –, conhecemos mais do mundo pós-calamidade e de parte de seu grupo composto por mais ou menos trinta integrantes. É interessante notar, aliás, que a história, embora em terceira pessoa, terá foco nesses três grupos, contando-nos sobre “os dois mundos” a partir deles, de modo que muita coisa fica em aberto e poderíamos nos questionar sobre o que aconteceu ou aconteceria futuramente, mas mesmo as possíveis pontas em aberto não incomodam a leitura em si.
    Pequena observação: esse é um livro que seria muito mais interessante se pudesse ser abordado considerando todo seu desenvolvimento e, com isso, os spoilers.
    A história começa no último dia antes do anúncio oficial da epidemia e, também, o último dia de vida de Arthur, um ator cuja vida vamos conhecendo aos poucos no decorrer do livro. Logo ao início, tem-se uma apresentação da peça Rei Lear, de Shakespeare, na qual Arthur interpreta o rei Lear e acaba morrendo em cena, devido a um infarto – se não estou enganada. Jeevan, o personagem meio esquecido da obra, estudando para ser paramédico, sobe ao palco para auxiliar o ator, quando percebe que este está passando mal. A partir de então temos os grupos estabelecidos; pois a Sinfonia Itinerante possui como membro Kirsten, uma atriz mirim que presenciou a morte de Arthur.

    “Kirsten se viu imaginando, como sempre acontecia quando via crianças, se era melhor ou pior nunca ter conhecido outro mundo, exceto o que veio depois da Gripe da Geórgia.” (p. 144).

    Inicialmente, não se tem ideia do quanto a epidemia afetou de fato a população sobrevivente, mas aos poucos a autora vai explorando o atual e o pós-desgraça. Talvez mais do que um livro sobre calamidades, seja pensar nas relações humanas – como é dito na contracapa – ou mesmo em como está a sociedade atual, ou mais do que uma história sobre tragédias, efemeridades e fama, a obra funcione como uma porta de reflexões e/ou pensamentos. Não como algo ali, explicitamente dito, mas mesmo o que está nas entrelinhas e só percebemos ao final.
    Explico-me melhor. De início, lembrei-me de outro livro que li há um tempo, “Na companhia das Estrelas”, de Peter Heller. Em ambos os livros vê-se uma situação pós-calamidade. São livros totalmente distintos, mas que nos passam algumas informações curiosas; fazem-nos pensar, mesmo que brevemente, nesse outro mundo em que poderíamos estar vivendo, eu diria ser uma ficção de um mundo muito verossímil. Mas voltando ao livro “Estação Onze”, e evitando os spoilers, questiono-os: já pensaram o quanto nossa sociedade, afinal, é frágil?

    “- Quer dizer que temos de acreditar que a civilização simplesmente chegou ao fim?
    - Bem – sugeriu Clark –, ela sempre foi um pouco frágil, não acha?” (p. 238).

    Vejam, se a sociedade fosse bem estruturada, talvez não se tornasse o que se tornou com a calamidade. Isso é, não se teria o desespero, a falta de tecnologia, o medo de simplesmente ver outro ser humano que não seja do seu grupo. Ao mesmo tempo a sociedade produz meios de que se possa voltar a estar num nível aceitável de convivência. Tudo depende do tempo, de quem vive e do que faz nesse tempo. Se mesmo com todo o comodismo, tecnologia e “facilidade” de sobrevivência que possuímos hoje temos essa sociedade com seus problemas, imagine com menos condições favoráveis. Na leitura da obra de Mandel, lembrei-me daquela ideia da sociedade como uma máquina, sendo cada “grupo” uma peça. Cada elemento coexiste, e mesmo sem ter noção ou conhecimento do outro, funcionam num conjunto para que a “máquina”, em sua totalidade, funcione adequadamente e sempre buscando melhorias. Morrendo os funcionários responsáveis pelo abastecimento de água e energia, por exemplo, todo o resto vem a cair/falir. Sem internet, sem energia, sem água, sem abastecimento de comida. A sociedade pós-calamidade era isso e um pouco mais; com pessoas que não tinham conhecimentos de uma vida sem o conforto e tecnologias. Essa questão também me lembrou do que se vê ao estudar sobre interdisciplinaridade, a fragmentação e toda a separação e conhecimento de “nada”.
    Ademais, convém dizer que o desenvolvimento dos personagens, apesar de bem colocado, de modo que consegues compreender as mudanças por que passaram, poderia ter sido muito mais explorado. O livro não é pequeno, são 400 páginas com fonte, margem e espaçamento pequenos, mas talvez ainda pudesse ser maior. A minha leitura da obra demorou um pouco, tanto por não parar tanto para ler quanto pelos pequenos pontos em que eu parava a leitura e pensava a respeito. Logo ao começo, por exemplo, um pequeno dado da obra, sobre a gasolina, me fez lembrar do livro “Na companhia das estrelas” e, disso, fiquei tentando lembrar e associar as semelhanças e diferenças; tentando pensar, como no início da leitura, qual a intensidade da situação, como as pessoas agiram e porque o fizeram desse modo etc. Aliás, é interessante mencionar o que o livro possui algumas referências bem específicas a outras obras, como a Star Trek e a algumas peças de Shakespeare, mas nada que atrapalhe a leitura caso desconheça as referências.
    A edição, publicada no ano passado pela Intrínseca, apesar de muito bonita e ser um livro agradável tanto pelo material quanto pela qualidade, possui alguns errinhos de revisão. Além de que fiquei um tanto desapontada com a capa após a leitura, pois é só no decorrer da obra que se percebe/descobre o motivo das facas na capa, e questiona-se o porquê das cabanas estarem tão iluminadas à noite – alguém já o leu e poderia me explicar caso eu não o tenha entendido? Porque não me parece possível pensar naquela iluminação toda na situação em que se encontravam, com recursos mais escassos etc. Enfim, mesmo para quem não goste de livros que abordem elementos meio pós-apocalípticos, com calamidades etc., acho que a leitura seria bem interessante, talvez mais ainda para quem não esteja acostumado com esse tipo de ambientação; embora quem já esteja também vá aproveitar muito, pois o livro é muito mais do que um retrato de calamidade. Fluído, com um drama bonitinho e uma retratação de parte de nossa sociedade, a leitura é muito bem-vinda.

    “O que quero dizer é que, quanto mais a gente lembra, mais a gente perdeu.” (p. 189).

    2 comentários:

    1. Olá Paula!
      Adorei sua resenha e fiquei mais curiosa ainda quanto ao livro. Acho muito interessante todo e qualquer livro que aborde essa temática e que coloca o ser humano à prova diante de situações que estão além do seu controle.
      Já li "Na companhia das estrelas" e infelizmente não gostei muito da narrativa, mas foi o único também. Todos os demais eu adorei ler, por isso pretendo dar uma chance à "Estação Onze".
      Beijos
      www.blogleituravirtual.com

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      Respostas
      1. Olá! =)
        Que bom! ^^ Sim, obras assim são muito interessantes! Já leste "Ensaio sobre a cegueira"? Me lembrei desta obra agora. É uma "situação fora de controle", de certo modo.
        Fato, a narrativa de "Na companhia das estrelas" não é muito boa mesmo. Bem... fraca, eu diria. O contrário de "Estação Onze", por sinal.
        Espero que aproveites a leitura, caso leia a obra! =]

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