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  • 17/06/2016

    A elegância do ouriço, de Muriel Barbery (Resenha)

    Olá, pessoal!
    Sabem quando gostas tanto de um livro que sente a necessidade de comentá-lo com alguém? De recomendá-lo? Pois bem, é por isso que decidi apresentar o livro “A elegância do ouriço”, da escritora Muriel Barbery. Se tornou um de meus favoritos (<3). A edição que li é da Companhia das Letras, a 7ª reimpressão, de 2008. A tradução é de Rosa Freire d’Aguiar; o título original é L’elégance du hérisson.
    Esse foi o livro que li logo em seguida de “Celeuma” (cuja resenha ficou um pouquinho grande...), e, talvez por isso, eu tenha me impressionado tanto com a obra de Muriel. Em outras palavras, depois de uma leitura um tanto decepcionante, pra não entrar em detalhes, qualquer livro bom poderia ser incrível para mim. Mas acredito que o livro de Muriel é magnifico por vários motivos. E tentarei demonstrá-los.
    O livro é dividido em cinco partes: Marx (Preâmbulo); Camélias; Sobre a gramática; Chuva de verão; e Paloma. A história possui duas narradoras, sendo uma delas a jovem Paloma e a outra a concierge (ou zeladora) Renée. A edição do livro deixa claríssimo quem está narrando sem precisar colocar seus nomes; a fonte utilizada por cada uma é diferente, além de que a numeração de uma não afeta a de outra.
    Primeiramente, somos apresentados a Renée, uma mulher de cinquenta e quatro anos, viúva e que nutre um gosto pela literatura – ela tem um gato chamado Leon em homenagem a Tolstoi! – e pela Arte. Mas, ao mesmo tempo, vemos que, por dado motivo, ela finge ser uma mulher grosseira e ranzinza. Isso é, nenhum dos moradores do número 7 da Rue de Grenelle sabe, ou mesmo percebe, que ela é uma pessoa um tanto sensível e que aprecia a Arte. A única pessoa que conhece esse lado de Renée é sua amiga Manuela, que possui um gosto particular pela culinária de doces. As duas possuem esse refinamento – Renée diz que ambas são aristocratas – que não costuma ser esperado de pessoas em suas posições sociais, o que mostra o trabalho com os estereótipos – algo que a autora utiliza bastante, mas de um modo sutil. Apesar de alguns personagens demonstrarem esses estereótipos ou mesmo serem de desenvolvimento pouco profundo, dá para se notar que há o objetivo de se deixar assim; estereótipos existem por uma razão, e Muriel soube expor isso sem se tornar cansativo ou apenas uma repetição do que sempre é dito. A própria narrativa de Renée permite esse contraste, sendo que sua fala é meio reflexiva e questionadora.

    “O que é uma aristocrata? É uma mulher a quem a vulgaridade não atinge, embora esteja cercada por esta” (p. 30, Renée).

    Gostaria de poder comentar sobre o desenvolvimento de Renée no decorrer da história, mas, como seria spoiler, observemos um pouco da outra narradora do livro, a adorável Paloma – embora xará da moça de “Celeuma”, essa Paloma é uma personagem simplesmente cativante. A jovem narradora é uma adolescente de doze anos, decidida a encontrar um sentido para a vida ou então se suicidar no dia de seu aniversário de treze anos, além de pôr fogo no apartamento – quando ninguém estiver em casa. Engana-se quem achar que a escrita dela será, por esse motivo, um drama exagerado de menina rica. Até me surpreendi pela escrita utilizada pela autora para Paloma; um estilo sutil, bem desenvolvido – acrescento que as conclusões da menina seguem uma linha de raciocínio – e que, embora um tanto melancólico e voltado para sua visão de que não há sentido na vida (algo que eu adorei), reflete o espírito em dúvida do ser humano, a angústia de continuar sem saber o porquê. A necessidade que temos de ter um objetivo; uma finalidade na vida. Além de mostrar que as pessoas são mais do que aparentam – e isso também quanto a Renée.
    Apesar de ser uma adolescente narrando, e no começo do livro ela parecer um pouco arrogante, pode-se perceber que a escrita é rica de pensamentos sobre as ações humanas. Paloma é uma adolescente quieta, que gosta de um ambiente tranquilo para pensar sobre o mundo, numa forma de se enclausurar, uma fuga de seus desagrados cotidianos – como sua irmã que está sempre ouvindo músicas em alto volume.
    Espero que gostem desse livro, porque olha... é lindo. <3
    Um fato intrigante é que Paloma não aceita o suicídio como uma fuga dos problemas, e sim uma alternativa para a vida que não há sentido ser vivida. Para ter certeza de que não estará tomando uma decisão errada, ela decide escrever dois diários: Pensamentos Profundos, e Diário do movimento do mundo. No primeiro, ela expõe pensamentos que considera profundos, isso é, fatos que a fizeram pensar sobre si mesma ou sobre as pessoas ao seu redor. No segundo, ela busca observar movimentos do mundo, coisas do cotidiano, que lhe sejam interessantes e mostrem o desenvolvimento de onde vive.

    “E também, acima de tudo, lancei a mim mesma um pequeno desafio: se a gente se suicida, deve ter certeza do que faz e não pode queimar o apartamento “a troco de nada”. Então, se existe alguma coisa neste mundo pela qual vale a pena viver, não devo perdê-la, pois, quando estiver morta, será tarde demais para ter arrependimentos e porque morrer por termos nos enganado é, de fato, muito idiota” (p. 36, Paloma).

    Paloma é, em síntese, o que falta ao ser humano do século XXI, esse humano pós-moderno: a sensibilidade, o olhar ao redor. Até pelo fato de que a própria Paloma não percebe tudo que a cerca, pois ter sensibilidade não implica necessariamente em perceber tudo, e sim estar mais atento, ser mais observador, apreciar a arte – para que não haja equívocos, refiro-me, aqui, não apenas a pinturas e músicas, como também a Literatura, entre outras formas de arte. Além disso, por meio dos pensamentos da jovem somos levados a pensar sobre atitudes tomadas cotidianamente – às vezes por preguiça, ou pela correria do dia a dia – e sobre a visão de futuro, como este é evitado e espera-se por ele, num misto confuso que não permite pausa.

    “Mas, se tememos o amanhã, é porque não sabemos construir o presente e, quando não sabemos construir o presente, contamos que amanhã saberemos e nos ferramos, porque amanhã acaba sempre por se tornar hoje, não é mesmo?” (p. 138, Paloma).

    É interessante que ambas as narradoras nutrem certo gosto por elementos da cultura japonesa. Um, em particular, que achei fascinante, foi a comparação entre portas, feita pela Renée.

    “Desde o primeiro filme, O gosto do arroz com chá verde, fiquei fascinada pelo espaço de vida japonês e por essas portas que correm e se recusam a fraturar o espaço e deslizam suavemente sobre trilhos invisíveis. Pois, quando abrimos uma porta, transformamos o local de um modo bem mesquinho. Chocamo-nos com toda a sua extensão e ali introduzimos uma brecha indiscreta resultante das proporções erradas. Se pensamos bem, não há nada mais feio que uma porta aberta. No aposento onde fica, ela introduz como que uma ruptura, uma interferência que quebra a unidade do espaço. Na peça contígua, gera uma depressão, uma fissura imensa e, no entanto, estúpida, perdida num pedaço de parede que preferiria ter ficado inteira. Nos dois casos, perturba a extensão sem outra contrapartida além da licença de circular, que pode, porém, ser garantida por vários outros processos. A porta de correr, por sua vez, evita os obstáculos e magnifica o espaço. Sem modificar o equilíbrio, permite a metamorfose. Quando é aberta, dois lugares se comunicam sem se ofender. Quando é fechada, cada um deles recupera sua integridade. A divisão e a união se fazem sem intrusão. A vida ali é um calmo passeio, ao passo que entre nós ela se aparenta a uma longa série de arrombamentos.” (p. 161-162, Renée).

    Além das narradoras, há outro importante personagem na história, responsável por certo movimento na história, o japonês Kakuro Ozu. Que, curiosamente, possui dois gatos com nomes em homenagem ao mesmo escritor russo que Renée adora. Pode-se dizer que as engrenagens que moviam a história até então passem a fluir em outro ritmo, e vemos uma mudança curiosa tanto na Renée quanto na Paloma.
    O desenvolvimento da história, num geral, foi bem explorado. Um pouco clichê? É, talvez. Mas o livro é fantástico! Ainda mais se pensarmos no movimento dos personagens. O que faz Paloma chegar as suas conclusões e como é tratada tanto por sua família quanto pelos outros dois personagens principais. Embora sutil, a relação que estabelecem entre si, apesar do curto tempo, é compreensível e mesmo admirável.
    Até o Smell (o coelho da foto) gostou. ;)
    Ademais, há três elementos fascinantes que aparecem no livro: gatos, Literatura, e gramática. E isso aparece na narrativa de ambas as personagens, e, para mim, que gosto desses três elementos, deixa o livro bonitinho e interessante de ler. Há até mesmo um capítulo em que Paloma critica sua professora quanto à justificativa do ensino de gramática! Uma questão que discutimos algumas vezes no curso de Letras, até. “Para que aprender gramática?”. Pode-se até dizer que algumas das reflexões de Paloma parecem até um pouco profundas demais para uma adolescente... Mas só o fato de não ser uma adolescente chata com problemas de adolescentes comuns já me agradou. Com isso digo o “comum” que muito aparece em livros atuais, como bebidas, festas, amigos meio chatos etc. Paloma demonstra, sim, esse seu lado problemático familiar, sua fuga dos problemas e que problemas pretende causar para fugir deles, porém, faz isso de uma forma mais reflexiva, interiorizada... diria até que com certa graciosidade.
    Claro que o livro possui algo que em dado momento me desagradou, que me fez pender entre se gostei ou não desse fato, se fez sentido ou não etc. Não chega a ser um spoiler, por isso contarei. Em dado momento, Renée comenta que está escrevendo um diário, o que chega a parecer que toda sua fala seja seu diário, e eu fui lendo pensando que fosse... Porém, ao final fica claro que não é um diário; ela até pode escrever um diário, mas não é o escrito que estamos lendo.

    Enfim, num geral, pode-se perceber que a Muriel Barbery conseguiu criar uma bela história sobre A elegância do ouriço, mesclando literatura, gatos, arte e pensamentos acerca do mundo. A escrita é fluída e os pontos negativos são pouquíssimos se compararmos com os pontos positivos; por isso, recomendo muitíssimo esse livro para quem se interessou e quiser conhecer essa excelente autora. Então, já conheciam a autora e esse livro?

     “Vejo direitinho os sintomas deles, mas não sou competente para curá-los e, com isso, também fico tão doente quanto eles mas não vejo” (p. 311, Paloma).

    10 comentários:

    1. O livro parece ser muito bom...
      http://blogdajenny2014.blogspot.com.br/

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      1. Olá! =)
        Sim, e, na minha opinião, é muito bom!

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    2. Oie Paula =)

      Apesar de sempre ter ouvido falar desse livro, tenho que confessar que nunca senti aquela vontade de conhecer a história.

      Já li um livro da Muriel, o A Vida dos Elfos e embora tenha gostado achei a escrita da autora em alguns momentos clássica demais para o meu gosto.

      Beijos;***

      Ane Reis.
      mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
      @mydearlibrary

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      1. Olá! =)
        Bah... Então, cada pessoa tem seu gosto, o livro me atraiu logo de cara. Curioso~ x)
        Que bacana, quero muito ler "A Vida dos Elfos"! *-*

        Que estranho, achei a escrita dela tão fluída em "A elegância do ouriço". =\
        Não a considerei rebuscada ou algo do tipo. Só há bastante referências à literatura e à cultura japonesa, isso eu concordo.

        Pergunto-me agora se a narrativa muda nas duas obras...

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    3. Paulinha, tô aqui só para dizer que as fotos do Smell estão um amorzinho e para reforçar que eu sou a próxima da lista de empréstimo para ler A elegância do ouriço. Tenho certeza que vou amar por motivos de: gatos e literatura! E a sua resenha, que eu já havia lido antes, nem comento porque só me instigou mais ainda a ler.

      Beijinhos, Hel - Leituras & Gatices

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      1. Olá!~
        Smell virou mascote já~ XD
        Lembrarei de levar o livro para ti, e espero que aproveites bastante a leitura também~ *-*

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    4. Ficou ótima a resenha, o livro parece ser muito bom <3
      Deixo o convite para conhecer meu blog: https://blogliterariodois.blogspot.com.br/
      Ig: @blogliterario2

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      1. Olá! =)
        Que bom! O livro é maravilhoso~ <3
        Espero que tenhas a oportunidade de conhecer a obra dessa autora.

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    5. Oi Paula,
      que resenha top, fiquei super curiosa pelo livro e vou anotar aqui para minha próxima compra.

      Bjokas da Vaci :*
      http://blogpapodeesmalte.blogspot.com.br

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      1. Oi! =)
        Fico contente por isso! Espero que tenhas a oportunidade de lê-lo e aproveites a leitura também~ *-*

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