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  • 01/04/2016

    Kokoro [Coração], de Natsume Soseki (Resenha)

    Olá, pessoal!

    Novamente a resenha é de uma obra japonesa, porém esta é do grande escritor Natsume Soseki (1867-1916). Já havia me deparado com outra obra do autor durante o ensino médio, que foi, surpreendentemente, sua obra de estreia na prosa literária, “Eu sou um gato” (Wagahai wa neko de aru), de 1905 – um livro que só pelo fato de ser um gato narrando já merece certa atenção. O autor também possui outras obras, como Botchan (1906), Sorekara (1909), entre outras. Desta vez pude ter o prazer de ler “Coração” – publicado pela editora Globo em 2008 –, graças a minha colega de curso Mai (Muito Obrigada!).

    Não é um livro com muitos personagens, cheio de ação ou mesmo fantasia. Pelo contrário, são poucos os personagens, não há ação e muito menos fantasia. Como o próprio título remete, “Coração”, é uma obra que abarca emoções do coração humano e as atitudes tomadas sendo guiadas por este. Mas se engana quem acha que este livro é um “romance” apenas. Há sim esse tipo de história no livro, mas há uma profundidade muito maior; a obra coloca o caráter da amizade em jogo, a busca por algo que satisfaça os próprios personagens em meio ao que a sociedade lhes impõe. Pode-se dizer que há quatro personagens principais, e o interessante é que seus nomes são desconhecidos (exceto o de um).

    O livro é separado em três capítulos, com várias partes menores cada um. Os dois primeiros capítulos (“o professor e eu” e “Meus pais e eu”) são narrados pelo protagonista sem nome, o “eu”; em nenhum momento ele é apresentado ou alguém menciona o seu nome, percorremos toda a história sem o saber – e isso pode ter sido muito proposital, pois essa abordagem em primeira pessoa – sem nome do personagem – nos permite sentir mais próximos da leitura. Ele narra os dois capítulos já após a morte do “Professor”, um homem que ele conheceu numa de suas férias, e por quem criou uma admiração curiosa ao longo dos anos. A obra inteira relata como ele conheceu esse Professor, descrevendo-o, buscando entender as ações dessa pessoa singular, o que o guiava a agir daquele modo, ao mesmo tempo em que se vê a relação que o Eu tem com sua própria família, comparando, por vezes, o Professor e seu pai.

    “Hoje, após sua morte, começo a entender. Não era que ele me odiasse desde o começo. Os cumprimentos secos e os gestos aparentemente frios que exibia às vezes não eram expressões de desagrado, buscando distância com relação a mim. O pobre professor estava alertando, aos que chegavam perto de si, que a aproximação não valia a pena. O professor, que não respondia ao afeto dos outros, antes de desprezá-lo, desprezava a si próprio” (p. 34-35).

    No decorrer do livro traçamos uma imagem do Professor, um personagem que se esquiva dos outros por motivos que só descobrimos, de fato, mais para frente da história. É na relação desses dois protagonistas que passa a haver o questionamento do que firma as relações humanas. Em dado momento, vê-se que mesmo as amizades são feitas por uma via dupla, não apenas você oferece algo, como espera receber algo. E quando não há esse retorno, mas há uma insistência, vê-se um momento de curiosidade e dúvida, um mover na mente dos personagens. Esse é um questionamento que o professor parece fazer ao Eu em dado momento. Ademais, uma questão interessante é que, em vários momentos, o Eu percebe que era por ser jovem e um tanto impulsivo que suas atitudes surtiam um efeito desejável; ao mesmo tempo em que pensa o que poderia ter mudado se houvesse feito algo diferente, agido de outro modo, pensado mais. E por vezes nós mesmos fazemos isso. Pensar no que passou e logo ver que tudo poderia ter sido diferente. Mesmo coisinhas pequenas como ter estudado mais para a prova.

    “Talvez por ser jovem, e por não ter absolutamente consciência de minhas atitudes, minha ação tenha sido valorosa de fato. Mas se por qualquer razão eu tivesse tomado outra atitude, que tipo de consequência teria trazido para nós?” (p. 41).

    Nos dois primeiros capítulos, além de conhecer o Eu e o Professor, vemos também a relação do narrador com sua família, a cobrança que os pais e a sociedade – de certo modo – fazem aos estudantes e futuros trabalhadores. Achei essa parte particularmente interessante, principalmente tendo em vista que me encontro no último ano da faculdade. Assim que acabam os estudos, e não há mais a “obrigação” para isso, precisa-se encarar o mundo de trabalho; trabalhar no que gosta ou no que lhe permitirá viver bem? O que, de fato, lhe agradaria? E o protagonista se vê nesse questionamento, ainda mais pela pressão dos pais para que ele encontre um emprego e seja motivo de orgulho. Não trabalhar não seria uma opção desejável; relembrando minhas aulas de sociologia e filosofia, encaixo isso na ideia de que trabalhar dignifica o homem. Ter um serviço e ser “independente” é o que, de algum modo, é imposto como necessário; é parte da sobrevivência a que precisamos passar para continuar vivendo.

    “Quando começam os estudos, todos têm uma grande expectativa em relação ao futuro, como o início de uma nova viagem, mas com o passar dos anos, e com a formatura se aproximando, é normal que a grande maioria se sentisse frustrada.” (p. 205).

    Contudo, mesmo com toda essa pressão aos estudantes, há outra questão curiosa que o livro aborda; o fato de se começar a pensar mais, de criticar mais no decorrer dos estudos e da construção de conhecimento. O Eu cria um distanciamento de sua família e da cidade em que viveu, um caráter até comum visto em diversas outras histórias. Com a criticidade e acomodação da modernidade, uma vida mais simples e regrada pelos convívios sociais acaba desagradando a muitos.

    “- Tem algo que não é bom nas pessoas que estudam, elas ficam cheias de argumentos” (p. 119).

    Fonte: Arquivo pessoal
    Mas essas cobranças sociais não se limitam ao Eu, pois no terceiro capítulo a cobrança aparece de outra forma ao Professor. Sendo este o narrador do último capítulo (“O professor e o testamento”); convém dizer que este capítulo é uma carta escrita para o Eu. O foco final do livro, então, passa a ser a vida do Professor, sendo que achei fantástica a forma como foi abordada, e poder ver o que move o coração humano; teria sido ali amor ou quase uma competição?

    Embora o capítulo três relate fatos cronologicamente anteriores aos capítulos um e dois, recomendaria não ler a orelha do livro, pois traz alguns spoilers – assim como no livro “O gigante O’Brien”. Para evitá-los omitirei fatos referentes a esse último capítulo no que se refere a mencionar personagens e suas histórias, pois há algumas questões muito interessantes. Como o fato do valor e distanciamento da escrita. E aqui me lembro do filme “Os narradores de Javé”, que assisti recentemente na aula de Escrita Criativa. Há toda uma questão de diferenciação entre a fala e a escrita, e quando o Professor coloca essa fala a seguir, fica muito evidente que independente de quanto tempo passe isso ainda vai importar. Pode não fazer muita relação entre carta e o ver a pessoa cara-a-cara hoje em dia, mas, se vermos no lugar da carta as redes sociais e todo o mais, o significado por trás é o mesmo, ainda é atual.

    “No começo, minha intenção era encontrar-me com você para falar-lhe pessoalmente, mas, ao começar a escrever, senti que dessa maneira poderia descrever-me melhor, o que me deixa feliz” (p. 278).

    E todas essas questões talvez não abarquem tudo que o livro me trouxe de reflexão. A narrativa é leve e fluída, e os personagens bem caracterizados. Esta é uma leitura que recomendo, seja para conhecer a escrita de Natsume Soseki ou simplesmente apreciar a obra. De negativo achei apenas o fato de a orelha do livro contar uma parte da história, apesar de, depois de feita a leitura da obra, ser um fato interessante, pois até mesmo compara aspectos da obra com obras de Machado de Assis. Por fim, uma fala de Roberto Kazuo Yokota sobre “Coração”:

    “Ao cabo, o romance se revela como um mergulho na condição humana, muito além dos exotismos, nacionalismos e “choques culturais” superficiais. Mas atenção: o mergulho, aí, é perigoso. O rio é profundo e sombrio, mesmo se sua superfície se mostre brilhante. Na superfície da água, a pedra mostra apenas uma pequena e aguda ponta; submersa, a rocha é descomunal: é preciso cuidado para não se cortar as arestas rochosas” (retirado do prefácio da obra, p. 22).


    E então? Já conheciam a obra? Leram ou pretendem ler? =)

    4 comentários:

    1. Nossa, Paula! Gostei dos temas que tu falaste, sobre sair de casa, ser independente, estudar, se tornar crítico. De certo modo me identifiquei nessas partes.

      E fiquei muito curiosa a respeito dessa relação com o Professor, curiosa mesmo.

      E como sempre sua resenha perfeita, muito profunda e detalhada.

      Beijos, Hel - Leituras & Gatices

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      Respostas
      1. Pois é, esses temas são bem interessantes! =)
        Achei legal abordar o distanciamento que pode surgir com certa criticidade, dos dois lados da história, do estudante e de quem o cerca.

        Realmente é bem curioso~

        Obrigada. ^^

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    2. Respostas
      1. Olá! =)
        Sim, pelo menos eu o achei bem bom~ ^^

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