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  • 07/01/2016

    Caçando Carneiros - Haruki Murakami (Resenha)

    Olá, pessoal!

    Já faz algum tempo – mais de um ano – que eu via o livro “Caçando carneiros” para comprar e ficava apenas na vontade, deixando-o naquela lista interminável de “livros que lerei futuramente”. Por ser meio “lerdinha”, demorei a perceber que o autor, Haruki Murakami, era famoso e que havia críticas muito boas sobre suas obras. Sem perceber eu já admirava as obras sem sequer ter visto um dos livros em mãos, o que me fez, enfim, ler algo do Murakami. Minha expectativa foi alta, ao mesmo tempo em que sabia que podia me decepcionar. Mas, “Caçando Carneiros” me surpreendeu por sua narrativa e como a história se desenvolveu, além de que foi o livro que mais ganhou post-it – e não foi por erros que encontrei, mas por frases que gostei e que significaram no decorrer da história. (Além disso, o final me surpreendeu! Mas isso já seria spoiler).
    Um primeiro comentário é quanto à capa do livro, simplesmente linda. Ainda não sei que peixe é esse da capa, mas me disseram que poderia ser uma sardinha, o que faz muito sentido – se alguém souber que peixe é, de fato, por favor, me diga, agradeceria. A parte em que aparece “Sardinha” no livro, aliás, é uma das partes mais interessantes, mas, como pode, talvez, ser um spoiler, omitirei esse fato. Aos curiosos, é o capítulo VI, parte 8, “O nascimento do Sardinha”.

    “- Ele não tem nome.
    - Como assim? De que jeito o chamam, nesse caso?
    - Não o chamo, simplesmente – respondi. – Ele apenas existe.” (p. 166).

    Mas sobre o que é o livro? É uma aventura envolta numa monotonia e “banalidade”, um drama sútil e profundo. Explicarei melhor, mas é assim que eu definiria de início. A primeira coisa a comentar é que os personagens não possuem nomes, o que me lembrou de José Saramago, embora tenham métodos diferentes de trabalhar com esse “anonimato”. Em Saramago, embora não tenham nomes, os personagens ganham palavras-chave que os definem, como “a mulher do médico”, “Rapariga dos Óculos Escuros” e “o primeiro cego”, enquanto que em Murakami me parece que a abordagem é mais sútil. Um dos pouquíssimos personagens que recebe um “nome”, ainda o é por um apelido, Rato, o que, querendo ou não, já traz à mente algumas características do próprio animal rato. Aliás, só percebi, de fato, que os personagens não tinham nome, enquanto conversava sobre o livro com uma colega e ela leu a contracapa do livro – uma parte do texto segue abaixo.

    “Neste romance magistral, Murakami cria um personagem, do qual não sabemos o nome, que leva uma vida tranquila trabalhando numa agência de publicidade, convivendo com a ex-mulher e alguns amigos – todos muito comuns, ou assim parecem. Mas tudo muda depois que ele recebe uma carta misteriosa e conhece pessoas inesperadas: uma modelo de orelhas sedutoras, um grupo político de direita com um chefe enigmático e, por incrível que pareça, um homem-carneiro.
    Lançado em uma busca fantástica, ele terá que atravessar o Japão para encontrar o único carneiro que pode trazer novamente algum sentido ao seu cotidiano. Nessa jornada, nosso narrador se verá no lugar de um detetive que, ao mesmo tempo que esclarece pistas, descobre um pouco mais sobre si mesmo”.

    Desse trecho acima, dois pontos ainda não caíram bem para mim. Primeiramente, não consegui identificar que ele “convive” com a ex-mulher. A relação deles é amigável, mas depois de uma aparição dela, ela some da história – aparecer em lembranças ou pensamentos acho que não vem ao caso. E, depois, na primeira frase do segundo parágrafo, há de se tomar um cuidado ao ler essa frase, pois não é bem o carneiro que pode trazer “algum sentido”, e sim a viagem em si, as decisões e as pessoas com quem se encontra. (Mais do que isso pode ser spoiler).

    “Parecia-me que o mundo continuava a girar e só eu permanecia no mesmo lugar” (p. 14).

    Ademais, lendo algumas resenhas do Skoob, sinto a necessidade de comentar a respeito da narrativa e do que algumas pessoas disseram ser “desnecessário” no livro. A primeira coisa a ser observada é como o próprio narrador se define, como ele encara sua própria vida. Os trechos abaixo podem expor isso, sendo o segundo de uma conversa logo ao início do livro.

    “Estarei para sempre percebendo as coisas tarde demais” (p. 22) 
    “- Minha história é banal. Tão banal que você vai acabar pegando no sono enquanto ouve.
    - Gosto de histórias banais.
    - Mas esta é do tipo que não agrada a ninguém.” (p. 43).

    Só esses dois trechinhos já dizem muito. O personagem vê um tédio e uma monotonia na sua vida e de certa forma a deixa ali, chama por ela, numa espécie de conforto, que, querendo ou não, é o que muitos de nós acabamos fazendo. Se adaptando ao meio sem tentar mudá-lo. E é porque ele vive assim que a viagem vem a buscar esse “sentido” para o cotidiano dele. Essa mudança da rotina mexe com o personagem, mas faz isso devagar, de modo que mesmo durante a viagem podemos perceber o tédio, a monotonia e o sútil questionamento existencial no decorrer das páginas. E, na minha leitura, isso foi tão bem colocado, mesmo as partes que muitos poderiam dizer que só enrolam, que se pode até acompanhar o desenvolvimento da aventura dele. Não sei se foi de propósito, ou se era essa a intenção, mas o livro é simples e surpreendente. Mesmo as descrições de ambiente não são desnecessárias, já que isso faz com que possamos imaginar de fato o ambiente do protagonista, é mais um modo de perceber como está o mundo ao seu redor. Afinal, as pessoas reagem diferentemente dependendo do ambiente em que estão.

    “A noite estava estranhamente morna, e o céu continuava nublado. Um vento úmido proveniente do sul soprava sem muita força. Como sempre. Cheiro de maresia misturado com prenúncio de chuva, ar carregado de lânguida nostalgia. O cri-cri dos grilos, ocultos nas moitas das margens do rio, ressoava intenso em toda parte. Mais um pouco e começaria a chover. Seria uma chuva fina, quase imperceptível, mas ainda assim capaz de ensopar” (p. 100).

    Outro ponto é que o livro não busca apenas “uma” definição. Não é um livro de detetive, mas também não é um livro de ação; é uma ficção japonesa, apenas isso. E é nessa categoria que o livro se desenvolve. Livros não precisam ser apenas uma coisa, não precisam se limitar a se encaixar num rótulo. Isso só serve para catalogação e organização de estantes. Assim como nossa vida não é feita de apenas um rótulo, o livro não precisa apenas de um, muito menos dar ênfase em um só, se é drama ou romance. É uma mescla de gêneros e situações, sentimentos e narrativas que formam uma obra de verdade. Respeito as opiniões alheias, mas, essa é apenas a minha opinião. (Sintam-se à vontade para contrariá-la, desde que não sejam rudes.)

    “- Quanto a isso, prefiro que você descubra sozinho – disse ela. – Mesmo porque, se eu tentasse explicar, estaria dando apenas uma versão realmente limitada dos fatos, não o ajudaria em nada” (p. 45).

    Murakami conseguiu colocar muitas questões sem parecer exaustivo, dentro da narrativa simples do protagonista. Mas se engana quem achar que o livro é leve, há, mesmo que brevemente, assuntos agoniantes e, de certo modo, fortes, mesmo que sejam apenas a contação da história de algum outro personagem, como a citação abaixo. Ou a abordagem sobre obsessão, também bem interessante, e curiosa.

    “Se o preso começava a cair no sono, jogavam-lhe um balde de água fria, espancavam-no, lançavam luzes potentes em seus olhos, desestruturando por completo seu padrão de sono. Submetidos a esse tipo de tortura por alguns meses, a maioria dos presos se acabava. Seus nervos se estilhaçavam” (p. 129).

    O final deixa algumas questões sem resposta, mas se observar o jeito todo em que a história se desenvolveu, não parece que ficou tão ruim essas “pontas soltas”. É assim que a vida é, nem tudo tem a resposta pronta, e aqui me lembro das aulas sobre Literatura em que houve uma conversa sobre o autor considerar ou não a interpretação do leitor, de deixá-lo ou não poder colocar suas próprias respostas no livro. Eu gostaria sim de um capítulo a mais, mas a falta dele não me faz desgostar do livro, pelo contrário, está nos meus favoritos.

    Fonte: Imagens retiradas do Google - a edição é minha.

    Em alguns pontos, o drama, mesmo o sútil, me fez parar e pensar um pouco. Costuradas numa simplicidade quase assustadora, as questões abordadas mesclam o cotidiano com o ficcional sem parecer exagero. Enfim, foi uma ótima leitura e o recomendo.

    Bom, esta é apenas a minha visão do livro, sendo esta a primeira obra que li de Haruki Murakami, e ainda pretendo ler muitas outras. E aí? Já leram ou se interessaram? =)

    8 comentários:

    1. Que resenha maravilhosa! Eu nunca tinha ouvido falar no livro ou no autor, mas me interessei bastante por causa da sua resenha! Eu gosto dessas narrativas que partem da simplicidade para serem incríveis. Parece ser uma boa leitura para me iniciar na literatura japonesa ainda neste ano de 2016. Continue escrevendo bem assim. :) beijos!
      http://virtualcheckin.blogspot.com

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      1. *-* Obrigada!
        Também adoro narrativas assim, e Murakami consegue isso direitinho.
        Alguns dizem que Caçando carneiros é um bom livro para se começar as obras de Murakami.
        Espero que aprecies também. ^^

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    2. Oi, Paula! Estava esperando por essa resenha!
      Parece ser uma estória muito louca, mas com diálogos bem interessantes, e eu adoro diálogos interessantes!
      Eu também gosto muito de livros que o final fica em aberto, normalmente essas são as estórias que eu nunca me esqueço, como Dom Casmurro, por exemplo. É bom quando o autor deixa pontas soltas e a imaginação precisa ser usada, isso gera debate e a obra se torna mais interessante. Eu, sinceramente, tenho preguiça de gente que acha que o livro precisa terminar redondinho com um final bem explicadinho, bleh. Gosto de estórias inteligentes e essa parece ser uma. Acho que também vou ler Murakami em 2016 :)

      ^^

      Maravilhosa resenha, Paula. Como sempre!

      Leituras & Gatices

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      1. Oi! *-* Provavelmente obras do Murakami aparecerão mais por aqui. Descobri que Caçando carneiros tem continuação! *o*
        Sim, é meio bizarrinha a história, mas os diálogos, de fato, são bem interessantes!
        Concordo plenamente contigo!
        *-* Se quiser, eu lhe empresto o livro.

        Obrigada! =)

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    3. Acho que vou querer emprestado, sim!
      Você não sabia que teria continuação? Mas o final dá para perceber que tem continuação?

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      1. *-*
        Não sabia! =o Fui descobrir só depois lendo umas resenhas do livro.
        O final deixa umas coisas a ver sim, mas não estranharia se não tivesse continuação.
        Felizmente tem! *-* Se chama "Dance, Dance, Dance".

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    4. Olá! Meu Deus, que livro confuso kkkkk Mas achei bem interessante, adoro livros com enredos diferentes, mas acho que vou estranhar o fato dos personagens não terem nome. Não conhecia o livro, mas vou procurar saber mais, achei interessante!
      Beijo!
      http://booksmanybooks.blogspot.com.br/

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      1. Olá! =)
        Haha, é só um pouquinho confuso. x)
        Olha, acho que estranharás muito pouco, porque o Murakami conseguiu fazer isso muito bem! O único problema é quando for comentar o livro com alguém e ficar se perguntando o nome de tal personagem para falar sobre. =\
        Enfim, vale a pena conferir mais, é muito bom. *-*
        Espero que gostes também.

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