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  • 28/12/2015

    Conto: o ator

    Olá leitores,

    Faz tempo em que não posto um conto aqui, gosto desse pois é engraçado, além de que adoro a obra do Luis Fernando Verissimo.

    O ator
    (Luis Fernando Verissimo)

    O Homem chega em casa, abre a porta e é recebido pela mulher e os filhos, alegremente. Distribui beijos entre todos, pergunta o que há para jantar e dirige-se para o seu quarto. Vai tomar banho, trocar de roupa e preparar-se para algumas horas de sossego na frente da televisão antes de dormir. Quando está abrindo a porta do seu quarto ouve uma voz que grita:
    - Corta!
    O homem olha em volta, atônito. Descobre que sua casa não é sua casa, é um cenário. Vem alguém e tira o jornal e a pasta das suas mãos. Uma mulher vem ver se a sua maquiagem está bem e põe um pouco de pó em seu nariz. Aproxima-se um homem com um script na mão dizendo que ele errou uma das falas na hora de beijar as crianças.
    - O que é isso? – pergunta o homem. – Quem são vocês? O que estão fazendo dentro da minha casa? Que luzes são essas?
    O que, enlouqueceu? – pergunta o diretor. – Vamos ter que repetir a cena. Eu sei que você está cansado, mas...
    Estou cansado, sim senhor. Quero tomar meu banho e botar meu pijama. Saiam da minha casa. Não sei quem são vocês, mas saiam todos! Saiam!
    O diretor fica de boca aberta. Toda a equipe fica em silêncio, olhando para o ator. Finalmente o diretor levanta a mão e diz:
    - Tudo bem, pessoal. Deve ser estafa. Vamos parar um pouquinho e ...
    - Estafa coisa nenhuma! Estou na minha casa, com a minha... A minha família! O que vocês fizeram com ela? Minha mulher! Os meus filhos!
    O homem sai correndo entre os fios e os refletores, à procura da família. O diretor e um assistente tentam segurá-lo. E, então, ouve-se uma voz que grita:
    - Corta!

    Fonte: Mercado Livre

    Aproxima-se outro homem com um script na mão. O homem descobre que o cenário, na verdade, é um cenário. O homem com um script na mão diz:
    - Está bom, mas acho que você precisa ser mais convincente.
    - Que- quem é você?
    - Como, quem sou eu? Eu sou o diretor. Vamos refazer esta cena. Você tem que transmitir melhor o desespero do personagem. Ele chega em casa e descobre que sua casa não é uma casa, é um cenário. Descobre que está no meio de um filme. Não entende nada.
    - Não entendo...
    - Fica desconcertado. Não sabe se enlouqueceu ou não.
    - Eu devo estar louco. Isto não pode estar acontecendo. Onde está minha mulher? Os meus filhos? A minha casa?
    - Assim está melhor. Mas espere até começarmos a rodar. Volte para sua marca. Atenção, luzes...
    - Mas que marca? Eu não sou personagem nenhum. Eu sou eu! Ninguém me dirige. Eu estou na minha própria casa, dizendo as minhas próprias falas...
    - Boa, boa. Você está fugindo um pouco do script, mas está bom.
    - Que script? Não tem script nenhum. Eu digo o que quiser. Isto não é filme. E mais, se é um filme, é uma porcaria de filme. Isto é simbolismo ultrapassado. Essa de que o mundo é um palco, que tudo foi predeterminado, que não somos mais do que atores... Porcaria!
    - Boa, boa. Está convincente. Mas espere começar a filmar. Atenção...
    O homem agarra o diretor pela frente da camisa.
    - Você não vai filmar nada! Está ouvindo? Nada! Saia da minha casa.
    O diretor tenta livrar-se. Os dois rolam pelo chão. Nisto ouve-se uma voz que grita:
    - Corta!

    Esse texto está no livro "Comédias da vida privada". O que acharam do conto? Comentem.

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